Como falar sobre o luto com as crianças

Foto Cia Materna - Priscila Sodré

Foto Cia Materna – Priscila Sodré

Há pouco mais de um mês meu pai faleceu (julho de 2014) e além de me deparar com a perda e o meu luto, me deparei com um pequeno problema; como contar para a Manu (minha filha de 5 anos) que o avô tinha falecido.

Como a morte foi repentina, ele teve um AVC hemorrágico, o assunto era mais delicado e mais difícil de falar com ela. A principio pensei em não contar, pois eles não tinham contato muito frequente, e pensei que com o tempo ela acabaria esquecendo-se dele.

Mas depois achei que não era justo nem com ela e nem com a memória dele, pois ela teve um avô durante cinco anos de sua vida, e ele a amava muito para ser apenas esquecido.

Então, um dia após o enterro, sentei com ela no sofá e contei que o vovô estava muito doente e que os médicos e os remédios não conseguiram curá-lo, e que por causa disso ele havia morrido, que ele ia morar com o Papai do Céu, e que o Papai do Céu ia curar ele, e que assim ia ficar bem e feliz.

A primeira pergunta dela foi:

“Depois que o vovô ficar bem, Papai do Céu devolve ele pra gente”?

Então tive que explicar que não. Que depois que as pessoas morrem elas não voltam mais, elas ficam pra sempre morando com o Papai do Céu. Ela teve um misto de emoções; ficou feliz, pois acho muito legal a ideia de morar com o Papai do Céu, achou que o avô ia ajudar Deus cuidar dela, ficou um pouco triste, teve um choro súbito, e disse que ia sentir muita saudade.

Fiquei alguns dias em casa após a morte do meu pai, peguei uma licença do trabalho, e durante esses dias conversamos sobre o assunto, ela me viu triste, chorando, e entendeu e foi compreensiva com tudo o que estava acontecendo e chegou a comentar com algumas pessoas.

Usei a religião como apoio para contar o que tinha acontecido e como uma forma de consola-la, mas fiz isso por termos uma educação/ vivência cristã em nossa família.

Cheguei a me questionar se estava fazendo a coisa certa e se fiz da maneira certa, então quando retornei ao trabalho conversei com o pediatra Dr. Marcelo Reibscheid, do Hospital e Maternidade São Luiz, criador do portal Pediatria em Foco, para saber como devemos falar com as crianças sobre o luto. Pois, o luto é algo que acontece esporadicamente em nossas vidas, e nunca esperamos e estamos preparados para ele, e explicar a morte para uma criança não é uma tarefa nada fácil.

Segue abaixo o resultado de nossa conversa

A perda de entes queridos e animais de estimação são parte de um ciclo da vida. Mas para os pequeninos é difícil lidar com isso.

As crianças podem reagir de várias formas e os pais podem não saber como abordar o assunto com os filhos. Mas como falar sobre luto com as crianças?

O pediatra Dr. Marcelo Reibscheid, afirma que o primeiro passo é falar a verdade. Normalmente os pais substituem prontamente um peixinho ou um cachorro que morre para que a criança não perceba o fato. Mas segundo o pediatra isso pode ser prejudicial ao entendimento da criança, apesar das boas intenções. Expressões como “descansou” ou “foi fazer uma longa viagem” podem dar a entender que há possibilidades de retorno, o que confunde a mente infantil e bloqueia o entendimento do que realmente ocorreu.

A morte faz parte do ciclo da vida e é importante que a criança entenda o que aconteceu. Devemos usar uma linguagem que ela entenda e explicar o ocorrido de acordo com as crenças familiares. A criança precisa aprender a lidar com a perda.

A criança pode passar por varias fases e possibilidades de reação: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. De acordo com Reibscheid, a criança constrói o conceito da morte de acordo com o desenvolvimento cognitivo. O carinho e o amparo dos pais nesse momento é fundamental para a construção do desligamento sem traumas. Aceitar é o primeiro passo para o luto.

“O acolhimento emocional é muito importante, pois reações como raiva, depressão, pesadelos e outras alterações de comportamento são normais. Em casos de permanência prolongada desses sintomas recomenda-se procurar auxílio de um especialista”, alerta Dr. Marcelo.

Fonte: Dr. Marcelo Reibscheid – pediatra do Hospital e Maternidade São Luiz,

site: http://www.pediatriaemfoco.com.br/

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