Relato de Parto – Julia Paglione: Simples, claro e emocionante

E para começar bem o ano de 2014, compartilho com vocês um lindo relato de parto. Recebi-o via e-mail, pela Julia, leitora do blog. Ela nos conta toda sua jornada de forma tão simples e clara, que não resisti em publicá-lo logo no inicio do ano, na intenção de informar, incentivar e inspirar as tentantes e gestante.

Relato de Parto Julia Paglione – Florianópolis

Engraçado como a vida dá voltas… Agradeço por ser flexível, como diria Raul: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”

Sempre achei que faria uma cesárea, minha mãe fez, a maioria das minhas amigas também, enfim era uma coisa que eu não pensava muito pois achava já ter decidido. Pensava: “Pra que sofrer?”

Escutava que a mulher ficava parecendo um bicho selvagem, que se o homem participasse do parto deveria ficar nas minhas costas senão poderia perder o interesse na mulher, que poderia fazer cocô na hora do parto, enfim, vários fatores que transformavam o parto natural em algo constrangedor.

Pensei assim até engravidar…

No final de setembro de 2011 descobri que estava grávida então comecei a pesquisar sobre o assunto, pois o que mais me deixava apavorada era, de longe, o parto!

Depois de conversas com amigas (e até desconhecidas) grávidas, mães, e do filme “Hanami” comecei a mudar de ideia.

O fato de descobrir que eu teria hormônios liberados no parto importantes para o bem estar e para o vínculo com a minha filha e que pra saúde dela era importante ela passar pelo processo todo, me faziam pensar melhor sobre o assunto.

Conforme minha barriga ia crescendo, eu via a mágica da vida se formando dentro de mim, ficava pensando como era possível um ser sendo criado dentro da minha barriga, percebi o quanto era importante passar por todas as fases desse milagre.

Então decidi que teria o parto natural.

Mas não era tão fácil assim, pelo menos pra mim. Eu tinha medo sim, e foi muito importante eu ter assumido e encarado esse medo até o fim. Sempre que alguém me perguntava sobre o parto, eu dizia que iria tentar o parto normal, deixei bem claro para os meus amigos, namorado e família.

Que ia tentar ia até meu limite, pois no fundo eu tinha medo de não conseguir e decepcioná-los.

Entramos em contato com a Cris Melo que é doula (outro termo que só conheci depois de grávida) e no começo estranhei sua pouca idade, uma cara de menina frágil, mas que na verdade é uma mulher forte e generosa. Como sabia que ela estaria ali para me ajudar principalmente na parte psicológica, eu achava que tinha mais chance de dar certo e ir até o fim.

Minha gravidez foi tranquila do começo ao fim, tudo indicava que poderia ter o parto normal. Ninguém duvidava que eu fosse capaz, somente eu tinha umas recaídas de vez em quando.

Tive um desentendimento com o médico que fez meu pré natal, ele já era meu ginecologista há mais ou menos 6 anos. Enfim, confiei nele e na hora que eu precisava de alguém para confiar minha insegurança, de alguém que me motivasse, ele fez o contrario. Percebi que ele não queria estar disponível para eu ter o parto da maneira que eu vinha sonhando, natural e, se possível, na água, ele me travava como mais uma grávida. E com 32 semanas de gestação mudei de médico.

O que no começo foi bem difícil de eu aceitar se transformou num grande alívio. Havia assistido a uma palestra do Dr. Fernando Pupim e resolvemos que ele seria nosso médico nesse finalzinho de pré natal. Eu e o Mauricio (meu namorado) já na primeira consulta nos animamos. O Dr. Fernando era uma pessoa sensível, que mostrou tratar cada gravidez como única, pra ele podia ser a trigésima grávida com quem ele conversava no dia, mas ele tratava com a maior paciência do mundo de uma maneira muito especial.

Por motivos financeiros tentaríamos ter o parto com um plantonista e o Dr. Fernando era o plano B para uma emergência.

Agora era esperar, e esperamos…

A Alice estava muito tranquila, não queria sair do aconchego da minha barriga.

Minha mãe veio de São Paulo no começo de maio, com medo da 1ª neta adiantar, e com a volta marcada para começo de Junho, pois teria que retornar ao trabalho, enfim, além dela ter que lidar com a minha estranha decisão sobre o tipo de parto, ela ainda tinha que controlar a ansiedade.

Toda hora que ela me via ela perguntava: “Você não está sentindo nenhuma dorzinha?”

Dia 26/5 saímos pra jantar e eu chorei muito porque estava achando que teria que induzir o parto, eu estava entrando na 41ª semana. Porque outra coisa que eu acreditava, apesar de o Dr Fernando dizer que eu estava errada, era que não queria nenhum tipo de intervenção, não queria analgesia, muito menos ocitocina. Se era pra ter o parto natural que fosse completamente “puro”.

Na minha cabeça (errada eu sei, mas era  que eu sentia) se fosse pra fazer intervenção que fizesse logo uma cesárea, pois não seia mais tão natural assim.

No dia seguinte acordei 6.30h da manhã com uma dor incomoda na barriga, mudava de posição e nada de passar, fui ao banheiro e nada, percebi que ela ia e vinha, chamei o Mauricio e pedi pra ele começar a anotar. Ele deu um pulo da cama animado com a possibilidade do grande dia. Não queria contar nada pra minha mãe até ter certeza que era o trabalho de parto. Mas alguns minutos depois, não consegui mais disfarçar a empolgação. Liguei pra Cris e ela disse que parecia sim que seria hoje!

Tomei café da manhã, fiquei no chuveiro fazendo o movimento com a bola de pilates, estava animada.

O Mauricio participou de tudo sempre me apoiou em tudo e me deixou muito livre para eu escolher o que me deixasse mais feliz e queria muito essa filha nos braços logo. Ele tem problemas com agulhas, desmaia mesmo, não sabia como seria a reação dele dentro da sala de parto, se ele conseguiria assistir, mas para a nossa surpresa ele participou de tudo!

Ele cantava e assoviava feliz da vida pela casa, nunca o vi tão feliz, mas quando a dor começou a apertar, eu tinha vontade de socar ele.

Estava só começando, mas desde essa hora até o fim eu fiz uma coisa que foi inconsciente, mas que hoje vejo que foi essencial: mantive o controle da situação o tempo todo. Não me desesperei, não gritei, não xinguei (achei que faria muito isso), acho que isso me fez muito bem. Nada contra quem grita, mas pra eu ter esse controle funcionou muito.

Bom, como para facilitar era dia de Iron Man Em Florianópolis, a expressa sul estava fechada (moro no rio Tavares e a maternidade era na Trindade).

A Cris aconselhou irmos pra maternidade umas 11 h. Ela também se informou de quem era a plantonista e já me sugeriu usar o plano B, imediatamente pedi que ela ligasse para o Dr. Fernando.

Chegando lá, a dor já estava bem forte, vomitei o café da manhã na porta da maternidade. E no exame inicial com a plantonista eu já estava com 5 cm de dilatação.

Ficamos no quarto esperando a Cris e o Dr. Fernando, eu, minha mãe, minha irmã (a dinda) e o Mau. Eu estava tensa, preocupada, sem saber até onde iria conseguir.

Quando o Dr. Fernando chegou eu já estava com 7 cm. Logo depois chegou a Cris preocupada com a demora dela por causa da fila que se alastrou pela cidade toda, mas eu estava bem.

Neste momento pedi pra minha mãe e irmã saírem do quarto.

Eu ficava trocando de posição a toda hora, ficava na bola, no chuveiro, na banheira. Não gostei muito de ficar de cócoras, parecia que doía mais. Fiquei bem à vontade para fazer o que quisesse.

Tentei almoçar, mas não consegui e me fez falta mais tarde.

Adaptei-me muito bem na banheira, gostei tanto que as contrações diminuíram. Dr. Fernando pediu que eu ficasse na maca um pouco, numa contração fiz uma força e a bolsa estourou, já devia estar com 8 cm nessa hora.

Mesmo com o clima que a Cris criou na sala, com as luzes mais escuras, velas e música, eu estava ficando preocupada.

Confesso que pedi para ” passar a faca” nem pedi analgesia, queria logo que “passassem a faca”, mas àquela altura é obvio que isso não aconteceria, no fundo até eu sabia disso.

Acho que era o auge da dor, mas a cada contração eu pensava: “Essa já foi, já passou, não a terei de novo, foi mais uma vencida, que venha a próxima”.

Conversava com a  Alice, eu dizia pra ela: “Venha filha, pode vir com a mamãe, eu e o papai já estamos prontos pra te receber”.

Bom, estava na hora de eu sentir vontade de fazer força, mas essa vontade não vinha. Então o Dr. Fernando pediu que eu fizesse força do mesmo jeito. A noticia boa é que nessa hora que eu fazia força, a dor parecia que diminuía.

Então desatei a fazer força, mas nada da Alice. O Mauricio estava empolgadíssimo, vendo tudo, animadão!  Ele e o Dr. Fernando diziam que estavam vendo a cabecinha dela apontar e voltar pra dentro, eu não acreditava, comecei a achar que ela não ia sair, estava exausta.

Foi quando a Cris disse para eu ficar de cócoras só um pouco, que ela faria movimento comigo para eu me apoiar nela. Ela colocou um espelho debaixo de mim e quando abaixamos vi a cabecinha da Alice aparecendo, isso me deu uma motivação gigantesca. Pensei comigo: “Vai ser agora”

Fiz uma força enorme, com muita vontade e a cabecinha dela saiu, nisso a Cris (ou o Dr Fernando não lembro) perguntou se eu queria continuar na banheira, disse que sim, e entrei na banheira com a Alice “pendurada”, o Mau entrou comigo também.

Mais algumas contrações, mais força, (essa fase acho que foi bem rápida) e então senti minha filha vindo ao mundo, saindo de dentro de mim, um milagre ali na minha frente! Eu e o Mau a pescamos na agua e explodimos de emoção. Agora, aqui escrevendo, depois de meses, eu ainda me emociono (não consegui escutar uma das musicas que estava tocando durante o parto por mais ou menos 1 mês. Eu chorava sempre que escutava ou lia a letra de “Debaixo D’agua” de Arnaldo Antunes), para escutar clique AQUI.

Foi a melhor sensação que eu já senti, minha filha nasceu linda, saudável, da maneira que eu sonhei, com pessoas do bem por perto. Isso não tem preço!

“Consegui!!!” Eu pensava.

Parto. Momento do nascimento da Alice

Parto. Momento do nascimento da Alice

Minha mãe e minha irmã entraram logo em seguida no quarto, viram eu e a Alice ainda unidas pelo cordão umbilical, ficamos ali sei lá quanto tempo (perdi a noção) chorando, rindo tudo ao mesmo tempo. Coloquei a Alice no peito e ela parecia um bichinho procurando meu seio pelo cheiro. Mas pensando bem somos bicho mesmo, né!

Fiquei com ela no colo até o Mau cortar o cordão.

Que felicidade, o Mau venceu, ficou comigo o tempo todo, carinhoso, me motivando, dizendo que eu era capaz e eu fui! Consegui, pelo bem da minha filha, que a partir daquele momento se transformou na coisa mais valiosa da minha vida, consegui porque sou mulher e tive pessoas por perto que respeitaram minha decisão, meu tempo e meus medos e que acreditavam em mim.

Até minha autoestima aumentou!

Hoje, pensando se mudaria alguma coisa, só tentaria comer, pois depois que a adrenalina passou, não conseguia levantar, fiquei deitada até o dia seguinte. Afinal, foram 12 horas de trabalho de parto, a Alice nasceu às 18.35h do dia 27/5, um dia de sol no outono da Ilha, calor na cidade e no coração!

Minha vida nunca mais será a mesma, agora tenho uma princesa que sorri pra mim todas as manhãs, que me mostra um mundo novo a cada dia, que vai me dar à chance de sentir a pureza de ser criança de novo. Quanta alegria.

Obrigada Cris, pela generosidade, pela música, fotos e carinho.
Obrigada Dr. Fernando pela dedicação e sensibilidade.
Obrigada Marina, pela dinda que é e por ter segurado as pontas com a mamãe o dia inteiro escutando meus gemidos.
Obrigada mãe, por ter respeitado minha decisão, por estar presente nesse momento e em tantos outros, pelo exemplo de mulher e mãe que é pra mim.
Obrigada Mau, pela parceria de todos os momentos, pelo pai amoroso e dedicado que é, por ter acreditado que eu conseguiria e por aceitar essa aventura juntinho de mim! Te amo!

Julia Paglione – mãe da Alice

Alice

Alice

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