Relato de Parto – Viviane Zuccoli

A DESCOBERTA DE UM “NOVO MUNDO”

O meu primeiro contato com o parto humanizado foi através de minha amiga Tatiana, que na época era minha aluna de personal, a qual acompanhei semanalmente (nas aulas) os seus quase 9 meses de gestação. Digo quase 9, porque seu filho (hoje meu afilhado!) nasceu de 34 semanas, num lindo parto de cócoras, com um tal de Dr. Jorge Kuhn, que futuramente iria aparecer novamente no meu caminho.

Quase um ano depois do nascimento do meu afilhado, e conforme planejamentos secretos (se a família soubesse, a pressão aumentaria), eu e o Henrique engravidamos!

No mesmo dia que pegamos o resultado do exame de sangue, marquei uma consulta com a minha ginecologista (e também obstetra) de confiança e iniciamos o pré-natal. Mesmo a médica sendo de confiança, e de passar com ela há quase 5 anos, decidi procurar a Dra. Andréa, por indicação da minha amiga Tati, e descobri que essa Dra. atendia numa nova clínica, chamada Casa Moara, onde havia encontros de gestantes semanalmente.

Antes de marcar a consulta, decidi ir a um encontro cujo tema era sobre as verdadeiras indicações de uma cesárea, para posteriormente “testar” a minha médica e verificar se havia uma luz no fim do túnel. O encontro foi uma verdadeira aula com milhares de informações preciosas, de um mundo que eu até então conhecia muito pouco. O professor dessa aula? O tal do Dr. Jorge Kuhn! Foi simplesmente paixão à primeira vista! No bom sentido, claro! Rs. Voltei pra casa encantada com tudo que havia ouvido, aprendido, e com o tal do doutor na cabeça. Não é que ele apareceu de novo no meu caminho? Sempre acreditei que nada nessa vida é por acaso!

Passei a freqüentar os encontros semanais e a cada dia, cada aprendizado, uma certeza: de que eu queria um parto natural humanizado. Tudo que eu aprendia eu compartilhava com meu marido Henrique, que desde sempre me apoiou na vontade do parto normal, mesmo antes de conhecermos o maravilhoso mundo humanizado.

Voltei na minha médica, numa consulta de rotina, e fiz o teste que eu tanto planejara. Uma decepção total! A gota d´agua foi quando ela disse que se ela fosse ter um outro filho, faria cesárea com certeza (além de uma série de baboseiras sobre a opinião dela sobre Parto Natural). Aquilo me soou tão antiético! Na hora me imaginei falando para os meus alunos de personal “ah, não precisa treinar não, se eu fosse você faria uma lipo! Muito mais prático!” Praticidade pra quê? Eu quero é saúde!!

Vendo a minha frustração ao sair da médica, meu marido aceitou marcarmos uma consulta com o Dr. JK e aí não tivemos mais dúvidas, o Henrique também se encantou ao conhecê-lo e com 20 semanas trocamos de ginecologista.

GERANDO E APRENDENDO

Minha gestação foi excelente, muito tranqüila e saudável. Fiz caminhadas, yoga e hidroginástica até quase o finalzinho e só exagerei na comida no final do ano, porque mês de festas não dá pra fazer dieta, né?

Durante os encontros na Casa Moara conheci a Drika e seu trabalho como doula e assim completei a minha super equipe. Decidi fazer o curso de preparação para o parto e cuidados com o bebê com ela, pois percebi que nos hospitais era muito focado em cesáreas (pra variar) e mal sabia que esse curso para o Henrique (que participou de todos os encontros) seria fundamental durante o meu trabalho de parto.

Durante toda a gravidez, eu conversei com a minha filha Giovanna, dizendo que ela não precisava ter pressa em nascer, pedia pra ela não ouvir as avós que queriam que ela viesse logo, que ela curtisse muito dentro da barriga e combinamos que a partir do ano novo (dia 01 de janeiro) ela já estaria liberada pra vir quando quisesse (a data prevista do parto era 12 de janeiro, mas pra família era no final do mês). Não queria que ela viesse durante as festas porque a família estava muito ansiosa, ficariam todos em cima, e eu e o Henrique havíamos combinado que só contaríamos para a família após o nascimento. Sabe como é família de italianos né? Tudo é motivo para muita comida, muita bebida, muito falatório… Só de imaginar tudo isso na sala de espera do hospital (e as avós perguntando “Falta muito?”) me incomodava profundamente!

E não é que a Giovanna me obedeceu? Passei muito bem as festas, comi tudo que eu tinha direito, curti muito minha barrigona (como se fosse uma despedida, uma preparação) e enfim chegamos em 2011. Feliz Ano Novo! Não pulei as 7 ondinhas (afinal, decidimos ficar em SP por precaução), mas não deixei de fazer os meus pedidos: um parto tranqüilo e natural, muita saúde pra minha filha e muita sabedoria para criá-la!

 O DIA “P”

 No dia 04/01, com 39 semanas e 5 dias, após a virada da lua na noite anterior,  comecei a sentir umas leves dores na parte superior da barriga (na altura das costelas), mas não dei muita atenção achando que eram gazes. Passei o dia numa boa, aguardei o Henrique chegar do trabalho para irmos a pé até o supermercado e depois fomos comprar algumas taças de plástico para o champagnhe reservado para o nascimento.

De noite, por volta de umas 21h30, percebi que essas leves dores deixaram de ser constantes e passaram a ser ritmadas, e logo me veio as contrações de Braxton Hicks na cabeça. Não havia as sentido até então, por isso não sabia como elas seriam… Será que são elas “atrasadas”? Ou será que já pode ser um indício de trabalho de parto começando? Mandei um email pra Drika e a resposta veio rápida e clara: Pode ser um trabalho de parto começando sim! Ai Senhor, que frio na barriga… rs.

O Henrique já tratou de pegar seu Iphone (não é merchan não!) com um aplicativo igual ao do Dr. JK que contava o tempo das contrações. E viva a modernidade! Parecia uma criança com um novo brinquedo nas mãos apertando o Start e o Pause a cada comando meu. A princípio eu não dei tanta importância a essas contrações, mas ao ver, pelo aplicativo, que elas tinham o mesmo tempo de duração e quase o mesmo intervalo, entendi que algo novo estava por vir.

Por volta das 24h essas contrações já deixavam de ser leves e quase imperceptíveis, e passaram a endurecer muito a barriga, além de uma leve cólica. Mandei um SMS para a Drika e ela me aconselhou a dormir para guardar energia para a fase final. Juro que tentei, mas não consegui relaxar imaginando que a minha grande hora estava acontecendo! E também porque as contrações vinham a cada 10 minutos e não dava pra pegar no sono nesse intervalo. O Henrique também não dormiu, estava mais ansioso do que eu, e preferiu continuar a brincar com seu brinquedinho.

Entre uma contração e outra eu o lembrava de arrumar sua mala (a minha e a da Gigi já estavam prontas), de separar as lembrancinhas da maternidade, o banner que iria na porta, enfim, os últimos detalhes.

As 2h30 (ou próximo disso) mandei outro SMS para a Drika dizendo que as dores estavam bem fortes (porém suportáveis) e mais freqüentes (a cada 5 min), que já não conseguia mais ficar deitada (a melhor posição era sentada na lateral da cama, com os pés bem apoiados no chão, as mãos apoiadas no guarda roupa e a massagem do Henrique nas costas). A Drika sugeriu tentar a posição de 4 apoios, e depois de algumas tentativas, voltei pra posição sentada que me parecia mais confortável.

Lá pelas 4h o Henrique me sugeriu um banho quente e aquela idéia foi tão reconfortante que não pensei duas vezes! Ele colocou um banquinho dentro do chuveiro e aquela sensação de ficar sentada, com a água quente batendo na lombar foi tão deliciosa que passei muito tempo naquela posição. Por que eu não havia pensado nisso antes? Devia ter optado por um parto domiciliar, viu!

Quando criei coragem de sair do banho, a primeira contração veio muito forte (muito mesmo)! Era uma sensação de cólica menstrual junto de uma cólica intestinal, algo difícil de descrever… Lembro de comentar com o meu marido que se aquilo não fosse a dor da tal Fase Ativa, eu tinha medo da dor que estava por vir… rs. Ao mesmo tempo, me concentrava e pensava que cada contração era “menos uma” e que logo minha princesa estaria em meus braços. Estava certa de que a dor valeria a pena!

O Henrique mandou um SMS pra doula (porque eu já não tinha mais condições para isso) e na seqüência ela nos ligou. Pedimos para ela vir, pois eu estava realmente com muita dor e com contrações muito próximas. Nesse meio termo, no final das contrações, passou a me dar uma vontade grande de fazer força (como um cocô louco pra sair!) e isso me preocupou muito. Por tudo que tinha aprendido nos encontros da Moara e no curso da Drika, eu sabia que essa vontade representava a fase final, próximo ao expulsivo e foi aí que perdi todo o meu controle emocional. O Henrique ligou para a Drika, explicou a situação e ela concordou que ao invés de vir pra casa, deveríamos nos encontrar direto no hospital, afinal ficava na metade do caminho (e viva o ABC!).

Enquanto isso a cena era: eu sentada no vaso sanitário, com a bolsa que acabara de se romper (Obrigada Nossa Senhora do Bom Parto, pedi tanto para que ela só rompesse no final!) e chorando porque não queria que minha filha nascesse ali, no meu banheiro! O Henrique teve que me vestir (só um top e um vestido, algo fácil) porque eu não conseguia me mover com medo que minha filha “escorregasse”. Eu tentava segurar a vontade de fazer força, mas ela era incontrolável. Em uma dessas forças, senti sangue e uma “gosma” grande sair (eu ainda estava sentada no vaso) e me desesperei ainda mais. Isso é o tampão? Ou seria minha placenta? Pânico total! O Henrique, percebendo meu medo, literalmente tomou conta da situação e me arrancou do vaso, enfiou o meu vestido, me deu um super absorvente e me empurrou até a porta do apartamento. Tudo estava ali me esperando no elevador: as malas, as caixas para a maternidade, o banner, o champagnhe… Como é bom ter um marido virginiano!

Fizemos o percurso São Caetano – Hospital São Luiz em uns 35 minutos (às 5h da madruga o trânsito era zero! Obrigada mais uma vez, Senhor!). Fui o caminho todo com as pernas travadas e rezando para minha pequena não nascer ali no carro! Ao chegar e ver a Drika na porta, me tranqüilizei um pouco. Ela já tinha ligado pra toda equipe e isso me tranqüilizou ainda mais. Fomos pra triagem (acho que é esse o nome daquela sala), e ao tirar minha calcinha, outro susto: mecônio! Colocaram o cardiotoco e pude ouvir minha filha, ainda tranqüila em meu ventre! Ufa! Todo aquele pânico passou ao ouvir o coraçãozinho da minha princesa! E aí veio a outra grande notícia: 10 cm de dilatação!! (e eu nem senti o exame de toque, pra ser sincera).

Lembro-me de pedir o Delivery 2, devido a banheira grande, e assim que entrei no quarto, logo chegou o Dr. Jorge e a Dra. Mema. Que cena maravilhosa! Meu marido, meus médicos e minha doula ao meu lado! Como é bom confiar na sua equipe e se sentir totalmente amparada por eles! O Dr. me explicou que eu não poderia ir para a banheira porque o Dr. Douglas ainda estava a caminho e os pediatras do plantão não permitiriam que a Giovanna nascesse ali, por isso decidi ficar mesmo na cama, sentada.

Comentei sobre a minha vontade de fazer força e aí veio a resposta maravilhosa: Fique a vontade! Faça! Sentindo o “círculo de fogo”, esperei a próxima contração e ao final dela fiz toda força que eu podia e logo ouvi gritos e sorrisos: a cabecinha já havia passado! Que maravilhosa é a natureza! Mais uma contração a caminho, só que agora uma força mais controlada, associada com a respiração, e minha Giovanna veio ao mundo: saudável, perfeita, linda!!! Fiquei extasiada com aquela cena: ela ali, entre minhas pernas, ainda nas mãos do Dr Jorge. Obrigada Senhor por esse presente divino! Um presente lindo, de 48,5 cm e 3.130kg. Senti-me orgulhosa por termos feito tão bem o nosso trabalho, eu e ela! Afinal, ela também me ajudou! E agora estávamos ali, as duas, separadas pela primeira vez, porém juntas, pra sempre!

Logo ela veio para os meus braços, seu choro acalmou, o meu aumentou e o tempo parou naquele momento, estávamos as duas abraçadinhas, pele a pele. O cordão ainda pulsando, o papai ao lado emocionado, e veio à vontade dela sugar! O Dr. Douglas (sim, ele já havia chegado) a colocou sobre o meu seio e pude amamentá-la como sempre sonhei! Era como se já tivéssemos feito isso à vida toda! Ela ficou mamando por um tempo, depois o Douglas examinou-a ainda no meu colo, sem traumas, colírios ou perfurações. Essa é a diferença de um pediatra particular e humanizado! Além de que a Giovanna ficou comigo por horas até o nosso quarto ser liberado e só então ela deu uma passadinha (de 1hora e meia) pelo berçário da maternidade.

Minha recuperação foi ótima (períneo íntegro e sem lacerações), a amamentação foi  muito boa, com algumas dificuldades no início, mas sem grandes problemas. A maternidade vem me ensinando muitas coisas e a primeira delas é que devemos seguir os nossos instintos de mãe, pois os palpites externos virão a todo o momento, mas cabe a nós filtrá-los. Ser mãe tem suas dores e delícias, mas aí já fica para um outro relato… 🙂

AGRADECIMENTOS

Quero agradecer primeiramente a Deus, por me permitir vivenciar esse milagre da vida!

À equipe maravilhosa que me acompanhou: ao Dr. Jorge, por ser esta pessoa iluminada, com mãos abençoadas, que nos dá a tranquilidade e confiança que precisamos nesta luta por um parto digno. À Dra. Mema, pelo auxílio durante o parto. À Drika, por estar ao meu lado, me encorajando e tentando me fazer relaxar a cada contração (e pelas fotos e vídeos lindos). Ao Dr. Douglas, por receber a Giovanna com tanto carinho e dedicação, cuidando dela até hoje.

Agradeço à Tati Santiago, minha amiga, comadre e quem me abriu os olhos para esse lindo caminho do parto natural. Agradeço a cada relato que li, às discussões da lista noveluas, aos encontros de gestantes na Casa Moara e às novas amigas que lá fiz.

Um agradecimento especial ao meu marido e doulo Henrique, por apoiar minha decisão desde o início, por estar ao meu lado durante todo o trabalho de parto, por acreditar em mim (até quando eu desacreditei) e por ter me dado o maior presente da minha vida!

E à minha filha Giovanna, por me escolher como sua mãe, por me ensinar tantas coisas, por me fazer querer ser uma pessoa melhor a cada dia e por ao nascer, me fazer renascer, como mãe e mulher! Amo você, minha princesa!

Viviane Zuccoli Trevisan

Mãe da Giovanna, 1 ano, Parto Normal Ativo Humanizado

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